Dunga como técnico foi trágico. O excesso de peso de Ronaldo, ex-fenômeno, não é engraçado. Mas a ausência de Ronaldinho Gaúcho foi capaz de transformar as pessoas
Fim do dia. O cansaço misturava-se com o mau humor de quem tem de tomar condução lotada para voltar para casa. Nenhum sorriso, ainda piorado pelo ruído que escapa dos fones de 12 dos mais ou menos 60 passageiros.

Em Joanesburgo, torcedores animados para ver o jogo. Transporte coletivo é mais divertido quando o destino é o futebol (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)
Quando o ônibus passa em frente a um shopping center, um casal de namorados, acompanhado da mãe de um e da sogra da outra (ou vice-versa), resolve que era o momento de fazer da senhora motivo de chacota.
– Sabe quem tá aí? O Neymar.
– Ah, é? – estranha, desinteressada, a mãe e sogra.
– A senhora não é nem aí pra Copa, né? – ensaia a moça. – Se o Neymar fosse, seria melhor.
Ela não responde. O rapaz não deixa barato.
– Quero ver se a senhora sabe da Copa. Quem é o técnico da seleção?
– O Dunga! – devolve, sem pestanejar.
Ela usava trejeitos típicos de uma criança na terceira série que se sente desafiada. Farejava o desaforo, contorcia o rosto e respondia quase como quem mostra a língua.
– Ah, que informada! E o Ronaldo, do Corinthians, tá na Copa?
– Não – insiste, no mesmo tom.
– Por quê?
– Porque está muito gordo!
O casal gargalha. Em volta, ninguém estava gostando da sabatina. O mesmo mau humor prevalecia, o mesmo ruído de fone de ouvido dominava a atmosfera. Do lado de fora, o tráfego congestionado não arrefecia, mantinha tudo parado. Mas a disposição de tirar sarro não tinha fim.
– Ah, e o Ronaldinho Gaúcho, tá na Copa?
A senhora já estava precavida para uma pegadinha e não tergiversou:
– Tá.
Em uma fração de segundo, o ônibus se transforma. O casal alcance o ápice da alegria com o erro de informação de quem nunca teve obrigação de saber do que tava acontecendo. Quem está em volta, primeiro, olha com espanto. Enquanto o casal comemora o objetivo alcançado e explica que o irmão de Assis não foi chamado. Todos os passageiros em volta riem-se da pobre senhora, inconformada.
Imagine! Se Ronaldinho Gaúcho estivesse na Copa? Sabe-se lá se seria melhor, mas poderia haver uma esperança. Alguns riem abanando a cabeça negativamente, outros só se divertem com desdobramentos complementares. Em poucos instantes a gravidade do ar vai voltando. A parada chega, desce o casal e a mãe-sogra desinformada que não gostou da brincadeira.
Nem o futebol da seleção nem o trânsito que há pela frente são engraçados.


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