A segunda Copa do Mundo com TV de cristal líquido é a primeira com celulares que captam a transmissão de canais abertos. Isso muda tudo nas ruas e no ônibus.
Mais do que há quatro anos, os bares investiram em aparelhos finos e de tela plana. Andar nas ruas durante os jogos permite acompanhar o jogo com olhadelas para dentro das lojas. Mas num ônibus, por exemplo, é diferente.
Para evitar perder os lances, a gente poderia aproveitar que a economia está muito aquecida e combinar: todo mundo para no mês da Copa. Isso deveria resolver. O Henrique Meirelles nem vai precisaria aumentar de novo a taxa de juros básica da economia. Aliás, se bobear, o Copom nem precisaria se reunir de novo em julho, dez dias depois do fim da Copa, conforme o cronograma definido no início do ano, mas isso é outra história.
Era dia de jogo da Alemanha, ainda apenas a sensação da Copa depois da goleada contra a frágil Austrália. Abandonar a frente da TV nessa hora seria uma temeridade.

Ônibus em Joanesburgo leva torcedores ao Soccer City. Em São Paulo, só celular com TV transporta os fãs do esporte bretão (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)
No ônibus, de jaqueta de time de basquete gringo, um trabalhador mantém o olhar perdido no horizonte inexistente da selva de pedra paulistana. O ônibus vira, gira, roda, e nem o fone de ouvido cai das orelhas do cidadão, nem ele se desequilibra dos apoios para quem está de pé no coletivo. Compenetrado que só ele.
Vem a próxima parada e embarca outro brasileiro. Este uniformizado, camisa canarinho (original de camelô). Paga a passagem e se posiciona, também de pé, para buscar o celular no bolso. Do aparelho sai uma antena, daquelas que os radinhos de pilha tinham há 20 ou 50 anos. Ele ajusta o volume e ninguém mais tem dúvida, o jogo da Alemanha está no ar.
Desde a chegada dos celulares que pegam a transmissão dos canais abertos de TV, pegar uma linha de ônibus cheio em São Paulo (SP) a partir das 18h é certeza de poder acompanhar, com um pouco de sorte e alguma cara-de-pau, o capítulo da novela. Para os que não querem ouvir o episódio, a situação transforma-se em azar dos descontentes.
Mas era 10h30, e faltava uma TV no coletivo. O olhar do de jaqueta de basquete americano muda. Sai do infinito e começa a procurar o que interessa. Começa a busca e encontra a mini-TV do mais novo passageiro que, por uma coincidência dos deuses do futebol, está a seu lado. Errou quem pensou que o fone de ouvido transmitia alguma versão do Rebolation. Era o Mundial de futebol que se escutava ali; o olhar perdido era tristeza. Mas tudo, agora, seria diferente.
O dono do celular ignora o trepidar dos buracos e curvas do corredor de ônibus, não move o olhar do jogo. O vizinho, ao contrário, começa um discreto movimento de pescoço. A cabeçora se aproxima da tela, mais precisamente do rosto do brasileiro uniformizado, olhos vidrados.
Se o que estivesse em disputa fosse um jornal, já haveria incômodo. Mas os rostos dos passageiros eram separados pela distância de dez folhas de papel. O barbear rude de um ameaçava roçar o do outro, e o incômodo do dono do celular era inevitável. Ele ensaia reagir, se afastar. A cena beira um momento de constragimento.
O da jaqueta, intruso, percebe, mas não hesita perder o que conquistou:
– Tá um a zero, né? – arrisca.
– Humpf. É – devolve, meio desaforado, o dono do aparelhinho.
– Alemanha é de nada – tripudia, na esperança de criar empatia.
Dá certo. O dono do celular, contrariado, estende o aparelho a uma distância intermediária entre os dois. Compartilha a transmissão e ambos agora acompanham a partida. Torcem contra a Alemanha.
Quem mandou Klose ser expulso, agora tome. Mal sabiam eles do tanto que precisariam secar os germânicos.


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