Sem Pelé, contundido, Garrincha assombrou os chilenos nas semifinais da Copa de 1962 e despachou os anfitriões.
Falar mais alguma coisa sobre Manoel dos Santos, o Garrincha, é desnecessário. O gênio das pernas tortas teve seu maior momento de protagonismo na Copa de 1962, no Chile, quando Pelé se contundiu na segunda partida e deu a oportunidade ao ponta-direita do Botafogo de mostrar toda a sua arte e polivalência. Assim como faria Maradona pela Argentina em 1986, Garrincha conduziu praticamente sozinho o Brasil ao bicampeonato mundial há 48 anos, com gols, assistências e dribles desconcertantes. “De que planeta veio Garrincha?” foi uma das manchetes do jornal chileno El Mercurio, após o confronto dos donos da casa contra os brasileiros, na semifinal.
O Brasil era franco favorito para aquele jogo decisivo de 13 de junho: tinha ganho o Mundial anterior, na Suécia, e revelado ao mundo Pelé e Garrincha. Mas agora o camisa 10 do Santos estava fora por contusão e os chilenos disputavam a Copa em seu próprio país e colocariam mais de 70 mil torcedores no estádio Nacional, de Santiago, para empurrar sua seleção. Ciente de que os anfitriões poderiam jogar sujo nos bastidores, o chefe de nossa delegação, Paulo Machado de Carvalho, impediu que os jogadores comessem ou bebessem qualquer coisa no trem que os transportou de Viña del Mar para a capital do país e os desembarcou duas estações antes, evitando hostilizações ou agressões no local previsto para o desembarque.
Chute no traseiro
Como não poderia deixar de ser, foi um jogaço. Bola na trave dos dois lados logo no início do primeiro tempo, uma de Didi, outra de Sánchez. Mas, contra todas as caneladas dos adversários, Garrincha desequilibrou mais uma vez. E com a ajuda do companheiro de Botafogo, Zagallo, que, aos 9 minutos, cruzou na área e gerou o rebote que Mané aproveitou para abrir o placar. Depois, o futuro técnico da seleção colocou a bola na cabeça de Mané, que ampliou para 2 a 0, aos 32. Fora os dois gols, Garrincha ainda sofreu um pênalti não marcado e mais tarde cruzou da direita para Amarildo (o substituto de Pelé) perder um gol feito. Porém, Toro fez um golaço de falta ainda na primeira etapa e recolocou o Chile no jogo.
A resposta foi fulminante: logo aos 2 minutos do segundo tempo, Garrincha escapou pela ponta direita, deixou o marcador no chão com uma finta de corpo e cavou um escanteio, que ele próprio cobrou na direção de Vavá. O atacante cabeceou para a rede, 3 a 1. Aos 15, de pênalti, Sánchez diminuiu e os donos da casa voltaram a pressionar. Rojas acertou outra bola na trave de Gilmar e, quando o empate parecia certo, uma bola em profundidade achou novamente a cabeça de Vavá, que fechou o placar em 4 a 2, aos 33 da etapa final. Cinco minutos depois, no entanto, a estrela do jogo, Garrincha, cansou de apanhar de Rojas e lhe desferiu um belo pontapé no traseiro. O juiz peruano Arturo Yamasaki o expulsou e, para completar, o genial ponta-direita ainda levou uma certeira pedrada na cabeça quando deixava o gramado.
Polêmicas
Essa expulsão gerou uma das maiores polêmicas dos Mundiais, pois Garrincha não poderia ter disputado a final contra a Tchecoslováquia – mas disputou. No julgamento do caso, na véspera da decisão, o bandeira uruguaio Esteban Marino desapareceu do Chile misteriosamente e o caso foi anulado, pois somente ele havia visto a suposta agressão do ponta brasileiro em Rojas. O árbitro brasileiro reserva naquele mundial, Olten Ayres de Abreu, revelou recentemente que nosso juiz titular naquela Copa, João Etzel Filho, foi o encarregado de pagar US$ 5 mil para Marino sumir do mapa.
Coisas do futebol, como a pedrada que Garrincha levou e que não teve qualquer punido ou a simulação de contusão do goleiro chileno Rojas no Maracanã, em 1989, nas eliminatórias da Copa da Itália, depois de um foguete lançado ao gramado pela torcedora Rosenery Mello. O goleiro foi banido do futebol e a moça foi parar na capa da Playboy – mas essa já é outra história. Vamos torcer para que nesta segunda-feira, 28 de junho, em continente africano, Brasil e Chile escrevam um novo e espetacular capítulo de seus confrontos, mas, dessa vez, sem pedras ou foguetes. Só com a bola no pé. E na rede.



Assine o 


[...] Tem História – Entre Brasil e Chile, a pedrada veio antes do foguete junho 28th, 2010 | Autor: admin [...]