Comentarista que acompanhou 12 mundiais in loco ainda vê grandes jogadores, mas lamenta a supremacia do vigor físico que tira espaços dos craques
O jornalista Orlando Duarte acredita que o futebol mundial ainda tem craques, mas menos espaço para eles criarem. A primazia do vigor físico dificulta a vida dos grandes jogadores e, por isso, é hora de revisar as regras do ludopédio, para retirar atletas de campo ou ampliar as dimensões do gramado.
Aos 78 anos, ele acompanha a Copa à distâcia pela segunda vez seguida. Antes, foram 12 mundiais, todos de 1958 a 2002. Assistiu, in loco, aos cinco títulos conquistados pelo Brasil. Duarte atribui à curta duração do torneio o fato de haver tantas surpresas.
Atualmente, o jornalista apresenta o programa programa Câmara Esporte Clube na TV Câmara SP. Constam em seu currículo 26 livros sobre esportes e 17 passaportes repletos de vistos.
Ele se queixa do barulho das vuvuzelas, mas minimiza as críticas à controversa Jabulani. “A bola é redonda, e ainda tem tecnologia, é bem feita”, resume. “‘Ah, ela sobe’. Claro, se você bater em baixo, ela sobe. É a física”, insiste.
Quem discorda?
Copa na Rede – Como está acompanhando a Copa?
Orlando Duarte – Em minha ótica, o futebol hoje é muito físico e menos técnico. Os jogadores estão mais bem preparados fisicamente, todos chegam à bola sem dar espaço ao grande jogador, que precisa de um ou outro espaço para fazer gol. Eles estão no direito deles de se prepararem, mas algumas providencias deveriam ser adotadas, com mudanças nas regras – redução no número de atletas em campo ou das dimensões do campo. A medida oficial de 105 metros permite que o goleiro dê um chutão e o atacante faça o gol, como ocorreu no sábado (referência ao chute de Neuer para Klose no jogo entre Alemanha e Inglaterra). Todo lançamento de goleiro chega na outra defesa, notou isso?
Copa na Rede – A arbitragem de má qualidade atrapalha?
Duarte – Com o jogo sendo tão rápido e com apenas um árbitro, a tendência de errar é muito grande. Sempre defendi dois árbitros, desde que a federação de São Paulo adotou esse padrão. Há quem diga que haveria conflito entre os dois, mas quem apita é quem vê, e quatro olhos vêm melhor do que dois. É outra alteração que poderia ser feita.
Copa na Rede – Como explicar o fiasco de uma Itália?
Duarte – A Copa é um torneio de surpresas. Quando se vê uma equipe forte cair, como em várias edições da competição, é porque não tem a chance de um segundo jogo, de um campeonato mais… campeonato, entende?
Copa na Rede – Os técnicos podem optar por um futebol menos vigoroso fisicamente?
Duarte – Tem opção, mas primeiro as equipes devem estar treinadas com uma formação e seus reservas definidos. Quase sempre há um atleta contundido ou que não atende à convocação. Por isso, não há possibilidades de treino. Além disso, os clubes não cedem suas estrelas. Quando o fazem e há três ou quatro jogadores hábeis, velozes e leves, consegue-se criar espaços. No futebol, só há uma fórmula, criar espaços no ataque, e eliminá-los na defesa.
Copa na Rede – A polêmica da bola está superada?
Duarte – Você vê jogadores na cara do gol que erram. Treinam, treinam, mas mandam para fora. E também perdem passes, a base, a coisa mais importante do futebol. Erram porque não estão preparados, é incapacidade e impotência, não falta de sorte. Aí têm de reclamar da bola. A bola é redonda, e ainda tem tecnologia, é bem feita. Tinha de se queixar do capotão, antigo. Esta tem menos pregas e corre mais, não perde velocidade no gramado molhado. “Ah, ela sobe”. Claro, se você bater em baixo, ela sobe. É a física. Com o corpo inclinado, como fazia Pelé e Zico, qualquer bola é boa para chutar. Com o corpo levantado, ela sobe.
Copa na Rede – Por que tanto holofote para Maradona?
Duarte – Como ele foi um jogador de grande prestígio, ele aglutina os outros e fica naquela de fazer drama e comédia. É curiosa a presença dele. Se Pelé estivesse no banco do Brasil, iriam falar com ele. Se (Franz) Beckenbauer estivesse lá, como já esteve, também. É o craque, o gênio. Maradona é uma figura caricata, curiosa, que está se recuperando na Copa depois de ter sido bastante desgastada. Isso por causa de droga e violência. É fácil esquecer que ele deu tiro em jornalista, que foi expulso do Mundial dos Estados Unidos, que fez gol de mão. Mas a memória boa não esquece.
Copa na Rede – Tem craque no futebol hoje?
Duarte – Tem, tem. Kaká passou cinco meses com problemas no púbis, mas quem vai negar que era um grande jogador – e é. No Barcelona, o Messi arrebenta. Na seleção não fez gol, mas está jogando muito. O grande jogador às vezes não precisa fazer gols, porque tem outros que fazem. O Brasil tem dois jogadores fantásticos na defesa, o Juan e o Lúcio. Marcam e fazem gols, se desdobram. Ainda na seleção brasileira, Robinho se desloca bem, confunde a marcação contrária. Quando Kaká e Robinho estão bem, o Brasil é outro. Na Holanda, tem o Robben, jogador de muita habilidade, tecnicamente um dos melhrores do mundo. A Espanha, que tem por base o Barcelona… Mas tem bons jogadores, sim. Ocorre que com o televisonamento, todo mundo conhece todo mundo, não tem surpresa. Insuportável é a barulheira dos jogos, porque ninguém se ouve em campo.




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[...] Para Orlando Duarte, mudança de regras melhoraria espetáculo junho 30th, 2010 | Autor: admin [...]